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Quarta-feira, 26 de Agosto 2026

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Inteligência artificial já faz parte da rotina de 7 em cada 10 alunos brasileiros

Uso de ferramentas de IA por estudantes cresce nas escolas e levanta debates sobre aprendizagem, pensamento crítico e preparação de professores.

Inteligência artificial já faz parte da rotina de 7 em cada 10 alunos brasileiros
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A inteligência artificial já deixou de ser uma tecnologia distante da realidade escolar e passou a fazer parte da rotina de uma parcela significativa dos estudantes brasileiros. Dados levantados pelo Cetic.br na pesquisa TIC Educação mostram que sete em cada dez alunos do ensino médio já utilizam ferramentas de inteligência artificial em pesquisas escolares. O número revela a velocidade com que a tecnologia entrou no cotidiano educacional e coloca escolas, professores e famílias diante de um novo desafio: como aproveitar os recursos oferecidos pela IA sem permitir que eles substituam o processo de aprendizagem.

O dado faz parte dos indicadores reunidos pelo Radar CNN, plataforma desenvolvida em parceria com o Instituto Locomotiva para acompanhar informações relacionadas à inteligência artificial, tecnologia e seus impactos na sociedade. A nova edição do levantamento amplia o retrato sobre a presença da IA no Brasil e mostra que a educação é uma das áreas diretamente afetadas pela rápida expansão dessas ferramentas.

Na prática, estudantes já recorrem a ferramentas de inteligência artificial para diferentes atividades. Pesquisas escolares, produção de textos, resolução de exercícios e busca por explicações estão entre os usos que passaram a fazer parte da rotina de muitos jovens. Ferramentas capazes de responder perguntas em poucos segundos e produzir textos sobre praticamente qualquer assunto oferecem uma facilidade que não existia para as gerações anteriores.

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A popularização desses recursos, porém, também modifica a relação entre estudante, professor e conhecimento. Se por um lado a inteligência artificial pode ajudar o aluno a compreender determinado conteúdo, encontrar exemplos ou organizar ideias, por outro existe o risco de que a ferramenta seja utilizada para simplesmente entregar uma resposta pronta.

É justamente nesse ponto que especialistas concentram parte das preocupações.

O desafio não é simplesmente usar ou não usar IA

O debate sobre inteligência artificial na educação muitas vezes acaba dividido entre duas posições: aqueles que enxergam a tecnologia como uma grande oportunidade e os que temem que ela prejudique o aprendizado.

Para o neurocientista Álvaro Machado Dias, professor livre-docente da Unifesp, sócio do Instituto Locomotiva e pesquisador especializado em tendências, a questão não está simplesmente em permitir ou proibir a utilização da tecnologia. Segundo ele, o uso da IA pode ser positivo quando aumenta o esforço intelectual do estudante, mas se torna problemático quando substitui esse esforço.

Essa diferença é fundamental.

Uma ferramenta de inteligência artificial pode, por exemplo, ajudar um estudante a compreender um conceito difícil, apresentar diferentes formas de explicar determinado assunto ou sugerir caminhos para uma pesquisa. Nesse cenário, a tecnologia funciona como apoio ao processo de aprendizagem.

O problema aparece quando o estudante deixa de pesquisar, interpretar, comparar informações e construir uma resposta própria porque simplesmente transfere todas essas etapas para a ferramenta.

Nesse caso, a atividade pode até ser concluída rapidamente, mas o aprendizado esperado pela escola pode não acontecer.

Pesquisa mostra preocupação com retenção do conhecimento

A preocupação não é apenas teórica. A reportagem destaca uma pesquisa publicada na revista Social Sciences & Humanities Open que analisou o uso do ChatGPT por universitários durante uma atividade acadêmica.

Segundo o estudo citado pela CNN, estudantes que utilizaram a ferramenta apresentaram menor retenção de conhecimento algumas semanas depois quando comparados a alunos que utilizaram métodos tradicionais de estudo.

O resultado chama atenção porque mostra que concluir uma tarefa não significa necessariamente aprender o conteúdo envolvido nela.

Essa distinção pode ser especialmente importante no ambiente escolar. Um aluno pode entregar uma redação bem estruturada, responder corretamente a uma lista de exercícios ou apresentar um trabalho com informações detalhadas utilizando inteligência artificial. Entretanto, se ele não participou efetivamente do processo de pesquisa e elaboração, pode ter dificuldades para explicar posteriormente aquilo que apresentou.

A questão, portanto, não é apenas verificar se o trabalho foi concluído, mas compreender quanto o estudante realmente aprendeu durante o processo.

IA pode mudar a maneira de ensinar

A presença da inteligência artificial também exige mudanças na forma como professores planejam atividades e avaliações.

Durante décadas, muitas tarefas escolares foram estruturadas com base na pesquisa de informações, produção de textos e resolução de exercícios. Com ferramentas capazes de realizar parte dessas tarefas em poucos segundos, algumas atividades tradicionais podem perder sua capacidade de avaliar aquilo que realmente se pretende verificar.

Isso não significa que pesquisas, redações ou exercícios devam desaparecer das escolas. O desafio é criar propostas que exijam participação efetiva do estudante.

Uma atividade pode, por exemplo, pedir que o aluno utilize uma ferramenta de IA para encontrar informações e depois compare as respostas obtidas com fontes confiáveis, identifique possíveis erros, explique quais informações considera corretas e desenvolva uma conclusão própria.

Nesse modelo, a inteligência artificial deixa de ser uma máquina que entrega respostas e passa a ser utilizada como objeto de análise e instrumento de aprendizagem.

Essa mudança exige preparação dos educadores e também novas formas de avaliar o conhecimento.

Professores enfrentam uma nova realidade

A expansão da IA entre os estudantes também aumenta a responsabilidade dos professores.

Não basta simplesmente determinar que os alunos não utilizem ferramentas de inteligência artificial. Na prática, muitos estudantes já possuem acesso a esses recursos em seus celulares, computadores e outros dispositivos.

O desafio passa a ser ensinar como utilizar a tecnologia de maneira responsável.

Uma pesquisa escolar feita com inteligência artificial pode ser uma oportunidade para discutir a qualidade das informações apresentadas pela ferramenta. Os estudantes precisam compreender que uma resposta produzida por IA não é necessariamente verdadeira apenas porque está bem escrita ou apresenta uma aparência convincente.

A tecnologia pode cometer erros, apresentar informações desatualizadas ou interpretar uma pergunta de maneira inadequada.

Por isso, a capacidade de verificar fontes e questionar respostas se torna ainda mais importante.

Pensamento crítico ganha importância

Em um ambiente no qual respostas podem ser produzidas instantaneamente, o pensamento crítico se torna uma das principais habilidades que a escola precisa desenvolver.

O estudante precisa aprender a fazer perguntas, comparar informações, identificar contradições e avaliar a qualidade de diferentes fontes.

Essa habilidade é importante não apenas para as atividades escolares, mas para a vida em sociedade.

A própria expansão da inteligência artificial aumenta a quantidade de conteúdos produzidos e distribuídos na internet. Textos, imagens, vídeos e áudios podem ser criados ou modificados com ferramentas digitais, tornando mais difícil distinguir informações verdadeiras de conteúdos manipulados.

O Radar CNN também destaca esse cenário. Segundo os dados apresentados pela plataforma, o Brasil concentra quase 39% dos casos de deepfake detectados na América Latina. Além disso, o país registra uma tentativa de fraude digital a cada 2,2 segundos, de acordo com dados atualizados da Serasa Experian.

Isso mostra que a educação para o uso responsável da tecnologia precisa ir além da sala de aula.

Inteligência artificial também pode ser ferramenta pedagógica

Apesar dos desafios, especialistas não defendem simplesmente afastar a inteligência artificial das escolas.

Ao contrário, quando utilizada de maneira adequada, a tecnologia pode oferecer novas possibilidades pedagógicas.

Um estudante que apresenta dificuldade em determinado conteúdo pode utilizar uma ferramenta para receber explicações alternativas. Um professor pode recorrer à tecnologia para criar exemplos, organizar ideias ou adaptar uma atividade a diferentes níveis de aprendizagem.

A IA também pode ajudar na personalização do ensino, desde que seu uso seja acompanhado pelo professor e respeite os objetivos pedagógicos.

A tecnologia, nesse contexto, não substitui o educador. Ela pode funcionar como mais uma ferramenta dentro de um conjunto de recursos utilizados para ensinar.

A diferença está justamente na forma como ela é incorporada ao processo.

Escolas precisam estabelecer regras claras

Outro desafio que surge com a popularização da IA é a definição de regras.

Quando uma escola permite que os alunos utilizem ferramentas de inteligência artificial sem estabelecer critérios, podem surgir dúvidas sobre o que é considerado autoria, pesquisa ou cópia.

Por outro lado, uma proibição completa pode não preparar os estudantes para uma realidade profissional e social na qual a inteligência artificial estará cada vez mais presente.

A definição de políticas claras pode ajudar a estabelecer situações em que a IA pode ser utilizada e outras nas quais o aluno precisa realizar a atividade sem auxílio tecnológico.

Essas regras também podem determinar a necessidade de informar quando uma ferramenta de inteligência artificial foi utilizada na produção de determinado trabalho.

O objetivo não precisa ser punir o uso da tecnologia, mas promover transparência e responsabilidade.

A escola precisa ensinar a usar IA antes que o hábito esteja consolidado

Um dos principais alertas apresentados na reportagem é justamente a velocidade com que os estudantes passaram a utilizar a inteligência artificial.

O uso se tornou massivo antes da consolidação de métodos pedagógicos capazes de orientar os alunos sobre como utilizar essas ferramentas sem comprometer o aprendizado.

Essa situação cria uma espécie de corrida entre a tecnologia e a educação.

As ferramentas evoluem rapidamente, enquanto mudanças curriculares, formação de professores e definição de políticas escolares costumam acontecer de maneira mais gradual.

Isso significa que escolas precisam desenvolver estratégias que acompanhem a transformação tecnológica sem abandonar princípios básicos da educação.

O papel das famílias também mudou

A presença da inteligência artificial na rotina escolar também chega às famílias.

Pais e responsáveis podem ter dificuldades para compreender até que ponto determinado trabalho foi produzido pelo estudante ou por uma ferramenta digital.

Mais importante do que tentar fiscalizar cada utilização da tecnologia é conversar com crianças e adolescentes sobre responsabilidade, aprendizagem e ética.

Os estudantes precisam entender que utilizar uma ferramenta para aprender é diferente de utilizá-la para evitar o esforço necessário à realização de uma atividade.

Também é importante orientar sobre privacidade e segurança. Informações pessoais, documentos, fotos ou dados de outras pessoas não devem ser inseridos indiscriminadamente em ferramentas digitais.

A alfabetização digital, portanto, passa a envolver não apenas saber operar dispositivos, mas compreender as consequências do uso das tecnologias.

IA deve transformar a educação, mas não substituir o aprendizado

A presença da inteligência artificial entre os estudantes brasileiros é uma realidade que dificilmente será revertida. O dado de que sete em cada dez alunos do ensino médio já utilizam IA em pesquisas escolares demonstra que a tecnologia já está inserida no cotidiano educacional.

O grande desafio agora é decidir como essa presença será administrada.

Proibir completamente a inteligência artificial pode ser pouco eficaz diante da facilidade de acesso às ferramentas. Permitir seu uso sem orientação, por outro lado, pode comprometer processos importantes de aprendizagem.

O caminho mais equilibrado passa pela educação para o uso consciente da tecnologia.

Isso significa ensinar os estudantes a utilizar a IA para pesquisar, questionar, comparar, criar e aprender, sem permitir que a ferramenta faça por eles aquilo que deveriam desenvolver por conta própria.

Para os professores, a mudança representa um novo desafio profissional. Será necessário repensar atividades, avaliações e estratégias pedagógicas, além de desenvolver conhecimentos sobre as possibilidades e limitações das ferramentas de inteligência artificial.

Para os estudantes, a principal lição é que uma resposta rápida não necessariamente representa conhecimento.

E para as escolas, o desafio é criar um ambiente no qual a tecnologia seja incorporada de forma responsável, sem perder de vista aquilo que continua sendo o centro da educação: a capacidade humana de pensar, interpretar, questionar, criar e aprender.

O crescimento da inteligência artificial nas escolas brasileiras não precisa ser encarado apenas como uma ameaça. A tecnologia pode representar uma oportunidade para transformar práticas pedagógicas e aproximar a educação das ferramentas que já fazem parte da vida dos estudantes. Mas, para isso, será necessário garantir que a IA seja utilizada como instrumento de aprendizagem, e não como substituta do esforço intelectual.

O futuro da educação provavelmente não será definido pela escolha entre utilizar ou não utilizar inteligência artificial. A questão mais importante será aprender a utilizá-la de maneira que fortaleça, em vez de enfraquecer, a capacidade dos estudantes de aprender por conta própria.

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