A JBS anunciou uma mudança importante no comando global da companhia. Wesley Batista Filho foi escolhido para assumir o cargo de CEO global a partir de 1º de janeiro de 2027, substituindo Gilberto Tomazoni, que está à frente das operações globais há quase oito anos. A troca marca uma nova etapa na história da maior empresa de proteínas do mundo e acontece em um momento em que o grupo também acelera sua estratégia de expansão internacional e busca aumentar a presença e a liquidez de suas ações no mercado americano.
A sucessão, segundo a própria companhia, foi planejada com antecedência e não representa uma ruptura na estratégia adotada nos últimos anos. Tomazoni continuará liderando as operações da JBS até o fim de 2026, conduzindo o período de transição. Depois disso, passará a ocupar a posição de vice-chairman do conselho de administração da empresa e atuará também como sênior advisor.
A mudança ocorre depois de um período de forte expansão da JBS. Durante a gestão de Tomazoni, a receita global da companhia passou de US$ 49,7 bilhões em 2018 para US$ 86,2 bilhões em 2025. No mesmo período, a empresa ampliou sua atuação em diferentes mercados, fortaleceu sua presença internacional e passou a negociar suas ações também na Bolsa de Nova York.
Agora, a missão de dar continuidade a esse processo ficará nas mãos de Wesley Batista Filho, integrante da terceira geração da família fundadora da JBS e executivo que construiu praticamente toda a sua carreira dentro da companhia.
Wesley Batista Filho assume o comando global
A escolha de Wesley Batista Filho representa uma sucessão interna. O executivo ingressou na JBS em 2011, aos 18 anos, como trainee na unidade de Greeley, no Colorado, nos Estados Unidos.
Desde então, passou por diferentes áreas e países antes de chegar ao cargo de CEO global.
Sua trajetória incluiu trabalhos na divisão de exportação de carne bovina no Brasil e posições de liderança nas operações de carne bovina da JBS no Uruguai e no Paraguai. Posteriormente, comandou a JBS Canadá e voltou aos Estados Unidos para liderar a operação JBS USA Fed Beef.
Em 2018, retornou ao Brasil para assumir o cargo de CEO da JBS no país. Três anos depois, passou a acumular essa função com a liderança da Seara, divisão de aves e suínos da companhia no mercado brasileiro.
Em 2022, assumiu a presidência global de operações, passando a responder por mercados da América do Norte, América do Sul, Oceania e Europa. Em 2023, voltou aos Estados Unidos para assumir o cargo de CEO da JBS USA, posição que ocupa atualmente.
A experiência acumulada em diferentes unidades da companhia é considerada um dos principais fatores para a escolha do executivo.
A transição também ocorre dentro de uma relação profissional próxima entre Wesley Batista Filho e Gilberto Tomazoni. Os dois trabalharam diretamente juntos durante cerca de uma década na operação americana da JBS.
Para Tomazoni, essa proximidade reduz o risco de uma ruptura na estratégia da companhia. A sucessão foi planejada e, segundo o executivo, representa uma passagem de bastão.
Batista Filho também destacou que já participou de boa parte das decisões estratégicas tomadas durante os últimos anos. Com isso, sua chegada ao comando global deverá representar principalmente uma continuidade, mas com espaço para novos projetos e prioridades.
O histórico de Wesley Batista Filho dentro da JBS
Apesar de ser integrante da família fundadora, Wesley Batista Filho construiu uma trajetória operacional dentro da companhia antes de chegar ao comando global.
Sua passagem por diferentes mercados permitiu ao executivo conhecer de perto as características das operações da JBS em diferentes regiões.
Essa experiência pode ser especialmente importante para uma empresa que deixou de ser predominantemente brasileira e passou a construir uma operação global diversificada.
Durante sua passagem pela JBS Brasil, a receita da operação saltou de R$ 27,6 bilhões para R$ 53,8 bilhões. Na Seara, Batista Filho também participou da expansão do portfólio, com a inclusão de categorias premium e novas marcas.
A experiência nos Estados Unidos, por sua vez, colocou o executivo no comando de uma das operações mais importantes da companhia.
A JBS USA representa uma parcela relevante dos negócios globais do grupo e está inserida em um mercado estratégico para a indústria de proteínas.
A nova posição, portanto, não será o primeiro grande desafio internacional de Batista Filho. O que muda é a dimensão da responsabilidade: a partir de 2027, ele passará a comandar todas as operações da JBS.
Gilberto Tomazoni deixa o cargo após oito anos
A saída de Gilberto Tomazoni do cargo de CEO global encerra um ciclo de quase oito anos.
Tomazoni ingressou na JBS em 2013 e ocupou diferentes posições de liderança antes de assumir o comando global. Entre suas experiências estão a presidência global do negócio de aves, a liderança da Seara, a presidência global de operações e o cargo de COO.
Sua gestão foi marcada por uma forte expansão da companhia.
A receita global saiu de US$ 49,7 bilhões em 2018 para US$ 86,2 bilhões em 2025. A taxa composta de crescimento anual da JBS nesse período foi de 8,2%, superior às taxas registradas por concorrentes como Tyson e Hormel.
Além do crescimento da receita, a companhia também conseguiu ampliar a geração de caixa.
Entre 2019 e o segundo trimestre de 2026, a JBS acumulou US$ 15 bilhões em fluxo de caixa livre. No mesmo período, distribuiu US$ 6,3 bilhões em dividendos e destinou US$ 3,3 bilhões para recompras de ações.
Os números ajudam a dimensionar o legado que Batista Filho terá pela frente.
A empresa cresceu, diversificou seus negócios e passou a ocupar uma posição mais relevante no mercado internacional de capitais.
Retorno aos acionistas também marcou a gestão
A JBS também destaca o desempenho das ações durante o período em que Tomazoni esteve à frente da companhia.
Segundo o CFO Guilherme Cavalcanti, entre dezembro de 2018 e o momento da reportagem, a empresa proporcionou retorno de 273% aos acionistas. No mesmo período, o S&P 500 apresentou retorno de 200%, enquanto Tyson registrou 34% e Hormel teve resultado negativo de 27%.
Além disso, a JBS destinou US$ 6,4 bilhões à expansão de suas operações e aproximadamente US$ 3,3 bilhões a fusões e aquisições.
A combinação de crescimento orgânico, investimentos e aquisições ajudou a consolidar a companhia como uma empresa global de proteínas.
Agora, a nova administração terá de manter essa trajetória sem perder de vista os desafios relacionados à dívida, às commodities, ao câmbio e ao ambiente econômico internacional.
JBS quer crescer ainda mais no exterior
Wesley Batista Filho assume o comando em um momento em que a JBS está abrindo novas frentes de crescimento.
Um dos movimentos mais recentes foi a parceria com a Danantara Investment Management, braço de investimentos do fundo soberano da Indonésia.
O acordo envolve as operações da JBS na Austrália e na Nova Zelândia. O parceiro deverá realizar um aporte inicial de US$ 2,5 bilhões em troca de 25% dessas operações. Ao todo, a transação poderá movimentar até US$ 5 bilhões em financiamento para os ativos da região.
Para Batista Filho, a parceria representa uma oportunidade de ampliar a presença da JBS na região do Pacífico.
A estratégia também contempla novas oportunidades no Oriente Médio e o desenvolvimento das operações existentes no Brasil e nos Estados Unidos.
Isso indica que a expansão internacional continuará sendo uma das prioridades do novo CEO.
Mercado americano é prioridade estratégica
Além da expansão operacional, a JBS quer fortalecer sua presença no mercado de capitais dos Estados Unidos.
A companhia passou a negociar suas ações na Bolsa de Nova York em julho de 2025 e, neste ano, entrou nos índices Russell 3000 e Russell 1000.
Agora, o próximo objetivo é conquistar espaço nos índices S&P.
O primeiro alvo é o S&P 400, índice que reúne empresas de médio porte listadas nos Estados Unidos.
Segundo Guilherme Cavalcanti, a companhia está avançando nos procedimentos necessários para ampliar sua integração ao mercado americano.
A JBS pretende apresentar suas demonstrações financeiras seguindo tanto o padrão US GAAP quanto o IFRS.
A expectativa apresentada pelo CFO é que a companhia possa integrar o S&P 400 em 2027.
Mas o objetivo final é ainda maior: chegar ao S&P 500.
JBS mira o S&P 500 em 2028
A entrada no S&P 500 seria um marco importante para a JBS.
O índice reúne algumas das maiores e mais relevantes empresas listadas nos Estados Unidos e é acompanhado por investidores de todo o mundo.
Para alcançar esse objetivo, porém, a companhia precisará aumentar seu valor de mercado.
Segundo Guilherme Cavalcanti, a JBS precisaria chegar a aproximadamente US$ 23 bilhões em valor de mercado para cumprir um dos critérios necessários para a entrada no S&P 500.
A projeção apresentada pela empresa considera um cenário realista de entrada no S&P 400 em 2027 e, posteriormente, no S&P 500 em 2028.
A estratégia faz parte de um movimento maior para reduzir o chamado desconto atribuído às ações da JBS no mercado e ampliar a liquidez dos papéis.
Quanto maior a presença da empresa em índices acompanhados por fundos e investidores institucionais, maior pode ser a exposição das ações a esses investidores.
Para uma companhia de porte global, esse processo pode contribuir para aproximar a percepção do mercado sobre a empresa de seu tamanho operacional.
Balanço mostra crescimento da receita, mas lucro foi negativo
A mudança de comando foi anunciada no mesmo dia em que a JBS divulgou os resultados do segundo trimestre de 2026.
Entre abril e junho, a receita da companhia cresceu 14% em relação ao mesmo período do ano anterior e chegou a US$ 23,9 bilhões, um recorde para o segundo trimestre.
Apesar do crescimento da receita, a última linha do balanço apresentou um resultado negativo.
A JBS registrou prejuízo líquido de US$ 102 milhões, revertendo o lucro de US$ 528 milhões registrado no segundo trimestre de 2025.
Segundo a empresa, o resultado foi afetado por efeitos não recorrentes.
Entre esses impactos estavam US$ 172 milhões relacionados a prêmios, juros e custos associados à recompra de títulos, além de US$ 81 milhões em ajustes relacionados à aquisição da Mantiqueira Foods.
Sem esses efeitos, o lucro líquido ajustado teria sido de US$ 218 milhões.
O Ebitda ajustado também recuou. O indicador ficou em US$ 1,42 bilhão, queda de 18% na comparação anual.
Fluxo de caixa continua positivo
Apesar da queda do Ebitda e do prejuízo contábil, a JBS conseguiu manter geração de caixa positiva.
O fluxo de caixa livre foi de US$ 130 milhões no segundo trimestre, uma melhora de US$ 185 milhões em relação ao mesmo período de comparação.
Esse indicador é acompanhado de perto por investidores porque demonstra a capacidade da empresa de gerar recursos depois dos investimentos necessários para manter e expandir suas operações.
A companhia, porém, também apresentou aumento na alavancagem.
A relação entre dívida líquida e Ebitda terminou o trimestre em 3,10 vezes, acima das 2,27 vezes registradas no mesmo intervalo de 2025.
O aumento do endividamento será um dos pontos que o novo comando deverá acompanhar de perto, principalmente diante da estratégia de continuar investindo e realizando movimentos de expansão internacional.
Operações brasileiras registraram recordes
Apesar dos desafios do balanço consolidado, as operações brasileiras apresentaram crescimento importante.
A JBS Brasil registrou receita recorde de US$ 4,5 bilhões no segundo trimestre, alta de 28% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Na Seara, a receita cresceu 18,2%, chegando a US$ 2,5 bilhões.
Os números mostram que o mercado brasileiro continua tendo importância estratégica para a companhia.
Ao mesmo tempo, a diversificação geográfica reduz a dependência de uma única região.
A JBS possui operações relevantes na América do Norte, América do Sul, Europa e Oceania, além de buscar ampliar sua presença em regiões como Oriente Médio e Ásia.
Essa diversificação é uma das características que diferenciam a empresa de concorrentes mais concentrados em determinados mercados.
JBS quer aproveitar novas oportunidades na Ásia e no Pacífico
A parceria com o fundo soberano da Indonésia mostra que a companhia pretende utilizar sua escala global para abrir novas oportunidades.
A Austrália e a Nova Zelândia possuem posições estratégicas no mercado internacional de proteínas e podem funcionar como uma plataforma para expansão na região do Pacífico.
O acordo com a Danantara pode oferecer capital para ampliar essas operações sem que a JBS precise financiar sozinha todo o crescimento.
Para o novo CEO, esse tipo de parceria representa uma oportunidade de acelerar a expansão internacional.
A companhia também identifica possibilidades de crescimento no Oriente Médio, onde o consumo de proteínas e a demanda por alimentos podem oferecer novas oportunidades.
O Brasil e os Estados Unidos continuam sendo mercados centrais, mas a estratégia aponta para uma JBS cada vez mais diversificada geograficamente.
A sucessão mantém a família fundadora próxima do comando
A escolha de Wesley Batista Filho também chama atenção por manter a família fundadora da JBS diretamente ligada ao comando executivo da companhia.
O novo CEO pertence à terceira geração da família Batista e possui mais de uma década de experiência dentro do grupo.
A sucessão, porém, ocorre em um modelo diferente de uma simples transferência familiar.
Antes de assumir o cargo global, Batista Filho passou por diferentes áreas e geografias, ocupando posições operacionais e executivas.
A empresa enfatiza justamente essa experiência como parte da preparação para o cargo.
O fato de ter trabalhado diretamente com Tomazoni durante anos também facilita a continuidade das estratégias já implementadas.
Novo CEO terá de preservar o crescimento
A principal missão de Wesley Batista Filho será transformar a experiência acumulada em crescimento sustentável.
A JBS chega à nova fase com uma posição global muito maior do que aquela existente no início da gestão Tomazoni.
A empresa possui uma receita anual superior a US$ 80 bilhões, operações espalhadas por diferentes países e presença crescente no mercado de capitais americano.
O desafio agora será continuar crescendo sem comprometer a geração de caixa e o equilíbrio financeiro.
A alavancagem de 3,10 vezes registrada no segundo trimestre mostra que esse equilíbrio será importante.
Ao mesmo tempo, a empresa pretende continuar investindo, realizar possíveis aquisições e expandir operações em mercados estratégicos.
A combinação de crescimento e disciplina financeira deverá estar entre as prioridades do novo CEO.
A nova fase da JBS
A troca de comando acontece em um momento particularmente importante para a JBS.
A companhia deixou de ser apenas uma gigante brasileira de carnes e passou a se posicionar como uma empresa global de proteínas.
O processo de internacionalização foi acompanhado por aquisições, investimentos em diferentes mercados e expansão do portfólio.
Agora, a entrada mais forte no mercado de capitais americano adiciona uma nova dimensão à estratégia.
A meta de chegar ao S&P 400 em 2027 e ao S&P 500 em 2028 mostra que a JBS quer ser reconhecida não apenas pelo tamanho de suas operações, mas também como uma companhia global relevante para os investidores americanos.
Para isso, a empresa precisará cumprir critérios financeiros, aumentar seu valor de mercado e ampliar a liquidez de suas ações.
A nova liderança terá papel central nesse processo.
Wesley Batista Filho assume o cargo com a vantagem de conhecer profundamente a empresa e seus principais mercados. Ao mesmo tempo, terá a responsabilidade de conduzir uma companhia que já opera em uma escala muito maior do que aquela encontrada por seu antecessor em 2018.
Gilberto Tomazoni deixará o comando executivo, mas permanecerá próximo da companhia. Como vice-chairman do conselho e sênior advisor, continuará participando da estratégia. Também seguirá como chairman do conselho da Pilgrim’s Pride e assumirá a presidência do conselho do Instituto J&F.
A transição, portanto, não significa o afastamento completo de Tomazoni.
A JBS busca preservar a experiência acumulada nos últimos anos enquanto prepara uma nova geração de liderança.
O anúncio de Wesley Batista Filho como CEO global representa, assim, mais do que uma troca de executivos. É o início de uma nova etapa para uma companhia que pretende continuar crescendo internacionalmente, ampliar sua presença no mercado americano e disputar espaço entre as grandes empresas acompanhadas pelos investidores de Wall Street.
Com a chegada do novo CEO em janeiro de 2027, a JBS terá pela frente uma agenda ambiciosa: manter o crescimento, melhorar a rentabilidade, administrar o endividamento, avançar na expansão internacional e conquistar maior reconhecimento no mercado de capitais dos Estados Unidos.
A meta já está colocada. Primeiro, o S&P 400. Depois, se o plano avançar como esperado, o S&P 500.
Portal Feras
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