A digitalização acelerada dos serviços bancários, públicos e comerciais trouxe praticidade para grande parte da população, mas também criou um novo desafio para milhões de idosos. Embora cada vez mais pessoas com mais de 60 anos utilizem celulares e a internet, muitas ainda dependem de familiares para realizar tarefas consideradas simples, como acessar aplicativos bancários, utilizar o portal Gov.br, fazer compras online ou consultar serviços públicos. Especialistas alertam que essa dependência pode evoluir para um quadro de exclusão digital e, em casos mais graves, contribuir para o isolamento social.
A realidade é vivida pela professora aposentada Maria Rosa Marcondes, de 94 anos. Ela utiliza o celular para acompanhar notícias, mas admite que sente insegurança ao acessar aplicativos de banco ou realizar compras pela internet. O receio de cometer um erro ou cair em golpes faz com que recorra à ajuda da filha e da neta sempre que precisa resolver questões financeiras ou adquirir produtos online. Segundo ela, antes da digitalização dos serviços, era possível resolver praticamente todas as necessidades do dia a dia presencialmente, em bancos, mercados e farmácias próximos de casa.
Essa dificuldade não está relacionada apenas ao aprendizado de novas tecnologias. Ela também envolve mudanças profundas na forma como empresas e órgãos públicos passaram a atender seus usuários. Nos últimos anos, aplicativos substituíram filas de bancos, carteiras digitais passaram a concentrar pagamentos, consultas médicas migraram para plataformas online e documentos oficiais passaram a ser emitidos quase exclusivamente por meios eletrônicos. Para quem acompanhou essa transformação desde cedo, a adaptação costuma ser natural. Para muitos idosos, entretanto, o processo representa uma barreira que limita a autonomia.
Dependência digital cresce com o avanço da idade
Um estudo da Universidade de Lancaster, realizado com participação de pesquisadores do University College London por meio do Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento (ELSA), mostra que o uso da internet entre pessoas mais velhas é elevado, mas diminui conforme a idade avança. Entre adultos de 50 a 64 anos, 97,7% utilizam regularmente recursos digitais. Na faixa entre 65 e 79 anos, esse índice cai para 91,1%. Já entre pessoas com 80 anos ou mais, apenas 65,7% permanecem digitalmente ativas.
Os pesquisadores observaram que a exclusão digital não significa apenas ausência de acesso à internet. Em muitos casos, o idoso possui smartphone, utiliza aplicativos de mensagens e redes sociais, mas encontra dificuldades para operar plataformas que exigem autenticação em múltiplas etapas, reconhecimento facial, QR Codes ou procedimentos considerados complexos.
Essa diferença entre estar conectado e conseguir utilizar plenamente os serviços digitais tem impacto direto na independência dessas pessoas. Sempre que precisam de ajuda para acessar um banco, solicitar um benefício ou realizar uma compra, acabam dependendo da disponibilidade de familiares ou pessoas próximas.
A exclusão digital também afeta a saúde mental
As consequências vão além das dificuldades práticas do cotidiano.
Uma meta-análise publicada pela National Library of Medicine concluiu que idosos desconectados dos serviços digitais apresentam probabilidade significativamente maior de desenvolver sintomas de depressão e sofrer perda acelerada da capacidade funcional. O estudo aponta que, em uma sociedade onde saúde, finanças e diversos serviços públicos estão concentrados em plataformas digitais, a exclusão tecnológica pode comprometer tanto o bem-estar emocional quanto a autonomia da população idosa.
No Brasil, o cenário segue tendência semelhante.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, mostram que 74,5% dos brasileiros com 60 anos ou mais utilizam internet. Ao mesmo tempo, cerca de um quarto dessa população permanece totalmente desconectada dos meios digitais. Isso significa que milhões de idosos ainda dependem exclusivamente do atendimento presencial para resolver questões básicas do cotidiano.
O medo dos golpes também dificulta a adaptação
Mesmo entre idosos que utilizam smartphones diariamente, a insegurança continua sendo um dos principais obstáculos para a digitalização completa.
O aposentado Aparecido Garcia, de 71 anos, acessa redes sociais, acompanha notícias e até produz vídeos para publicar na internet. Apesar dessa familiaridade com o ambiente digital, evita realizar compras online ou movimentações bancárias pelo celular sem o auxílio da filha.
Segundo ele, o receio de cair em golpes pesa mais do que a dificuldade em utilizar os aplicativos. Sempre que precisa consultar a conta bancária ou realizar alguma operação financeira, prefere recorrer ao atendimento presencial ou pedir ajuda à família.
Esse comportamento é reflexo de um problema crescente. O aumento das fraudes digitais, golpes envolvendo Pix, clonagem de aplicativos de mensagens e falsas centrais de atendimento faz com que muitos idosos passem a desconfiar de qualquer operação realizada pela internet.
Na tentativa de se proteger, acabam reduzindo ainda mais o uso de ferramentas digitais, o que aumenta sua dependência de terceiros para executar tarefas simples do cotidiano.
Serviços digitais precisam considerar diferentes perfis de usuários
O avanço da digitalização trouxe ganhos importantes para empresas e órgãos públicos. Processos que antes exigiam deslocamento, filas e atendimento presencial passaram a ser resolvidos em poucos minutos por meio de aplicativos e plataformas online. A transformação reduziu custos operacionais, ampliou a oferta de serviços e facilitou o acesso para milhões de pessoas.
No entanto, especialistas em envelhecimento alertam que a inovação precisa caminhar junto com a inclusão. Quando um serviço passa a existir apenas no ambiente digital, parte da população pode encontrar dificuldades para utilizá-lo, especialmente idosos que não tiveram contato com a tecnologia ao longo da vida profissional ou que apresentam limitações visuais, motoras ou cognitivas relacionadas ao envelhecimento.
Segundo os pesquisadores ouvidos na reportagem, a solução não está em interromper a digitalização, mas em desenvolver plataformas mais intuitivas, acessíveis e compatíveis com as necessidades desse público. Letras maiores, linguagem mais simples, etapas reduzidas para autenticação e canais de atendimento complementares são algumas das medidas apontadas como capazes de facilitar a experiência dos usuários mais velhos.
Outro aspecto considerado essencial é manter alternativas presenciais para serviços considerados indispensáveis. Em muitos casos, a eliminação completa do atendimento físico acaba criando barreiras para pessoas que ainda não conseguem utilizar plenamente os recursos digitais.
Inclusão digital vai além do acesso à internet
Durante muito tempo, a exclusão digital foi associada apenas à falta de acesso à internet ou à ausência de equipamentos tecnológicos. Hoje, essa realidade é mais complexa.
Muitos idosos possuem smartphone, utilizam aplicativos de mensagens para conversar com familiares e acompanham notícias pelas redes sociais. Ainda assim, enfrentam dificuldades quando precisam realizar procedimentos que exigem maior familiaridade com plataformas digitais.
Operações como validar documentos por reconhecimento facial, recuperar senhas, utilizar autenticação em dois fatores, acessar serviços públicos integrados ou interpretar mensagens de segurança costumam gerar dúvidas frequentes.
Essa diferença entre utilizar a tecnologia para comunicação e conseguir acessar serviços essenciais ficou conhecida entre pesquisadores como um novo tipo de exclusão digital: a exclusão por competência.
Nessa situação, o problema não está na conexão com a internet, mas na capacidade de utilizar recursos digitais com autonomia e segurança.
O papel da família na adaptação tecnológica
Enquanto parte dos idosos busca aprender a utilizar novas ferramentas, muitos acabam recorrendo aos familiares para resolver questões do dia a dia.
Filhos, netos e outros parentes frequentemente assumem tarefas como pagamento de contas, agendamento de consultas médicas, emissão de documentos, atualização cadastral, utilização de aplicativos bancários e compras pela internet.
Embora essa ajuda seja importante, especialistas alertam que ela não pode substituir totalmente a autonomia da pessoa idosa.
Quando toda a gestão financeira ou administrativa passa a depender de terceiros, cresce o risco de isolamento, perda de independência e até de situações de vulnerabilidade, principalmente quando o idoso vive sozinho ou possui uma rede familiar reduzida.
Por isso, programas de alfabetização digital voltados para a terceira idade têm sido apontados como uma das estratégias mais eficazes para promover autonomia e fortalecer a inclusão social.
Segurança digital também deve fazer parte da inclusão
Outro ponto destacado pelos especialistas é que ensinar idosos a utilizar aplicativos não é suficiente.
É necessário que eles também aprendam a identificar tentativas de golpe, reconhecer mensagens falsas, proteger senhas e verificar a autenticidade de ligações, e-mails e mensagens recebidas por aplicativos.
Nos últimos anos, fraudes digitais envolvendo falsas centrais bancárias, links maliciosos e golpes utilizando o Pix cresceram significativamente, tornando os idosos um dos públicos mais visados por criminosos.
Esse cenário faz com que muitas pessoas deixem de utilizar recursos digitais por medo de cometer erros ou sofrer prejuízos financeiros.
Especialistas defendem que iniciativas de inclusão digital devem combinar capacitação tecnológica com educação para segurança digital, permitindo que os usuários desenvolvam confiança para utilizar os serviços disponíveis.
Envelhecimento da população amplia o desafio
O debate sobre inclusão digital ganha ainda mais importância diante das mudanças demográficas observadas no Brasil.
A população idosa cresce em ritmo acelerado e, nas próximas décadas, pessoas com 60 anos ou mais representarão uma parcela cada vez maior da sociedade.
Ao mesmo tempo, bancos, operadoras de saúde, empresas privadas e órgãos públicos continuam ampliando a digitalização de seus serviços.
Esse cenário torna necessário desenvolver soluções que conciliem inovação tecnológica e acessibilidade, garantindo que a transformação digital beneficie toda a população, independentemente da idade.
Especialistas ressaltam que a tecnologia pode ser uma importante aliada do envelhecimento ativo. Aplicativos de saúde, telemedicina, monitoramento remoto, serviços bancários, compras online e comunicação com familiares oferecem mais comodidade e podem contribuir para melhorar a qualidade de vida.
Para isso, porém, é necessário que esses recursos sejam acessíveis, seguros e fáceis de utilizar.
Inclusão digital é também uma questão de cidadania
Mais do que facilitar o acesso à tecnologia, promover a inclusão digital significa garantir que idosos possam exercer plenamente seus direitos em uma sociedade cada vez mais conectada.
Quando serviços públicos, bancos, planos de saúde e empresas concentram suas operações em plataformas digitais, a capacidade de utilizar essas ferramentas passa a influenciar diretamente a autonomia e a participação social da população.
Especialistas defendem que políticas públicas voltadas à alfabetização digital da terceira idade, associadas à manutenção de canais presenciais de atendimento, podem reduzir desigualdades e evitar que a inovação tecnológica se transforme em um novo fator de exclusão.
O desafio, portanto, não é desacelerar a transformação digital, mas garantir que ela seja construída de forma inclusiva. À medida que o Brasil envelhece, pensar em soluções acessíveis para diferentes perfis de usuários deixa de ser apenas uma questão tecnológica e passa a representar um compromisso com a cidadania, a autonomia e a qualidade de vida de milhões de brasileiros.
Portal Feras
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