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Quarta-feira, 26 de Agosto 2026

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Gerdau prepara uma nova fase no Brasil com plano de transformação que pode levar uma década

Companhia quer reduzir a diferença entre as operações brasileiras e americanas, reorganizar ativos, investir em mineração e eficiência e preparar o negócio para novos mercados

Gerdau prepara uma nova fase no Brasil com plano de transformação que pode levar uma década
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A Gerdau está preparando uma transformação profunda de suas operações no Brasil. A maior produtora de aço do país pretende criar uma espécie de “nova Gerdau” em território nacional, com um plano que deve se estender por cerca de uma década e mudar a forma como a companhia organiza sua produção, seus ativos e seus investimentos.

A estratégia surge depois de uma mudança expressiva no peso das operações brasileiras e americanas dentro do resultado da empresa. Em 2017, quando Gustavo Werneck assumiu o comando da companhia, os Estados Unidos representavam 19,3% do Ebitda da Gerdau. Hoje, a participação americana chegou a 74,1%, enquanto o Brasil responde por 20,1% e outras operações na América do Sul representam 5,8%.

O objetivo agora é reverter parte desse desequilíbrio. A companhia quer fortalecer novamente a operação brasileira e fazer com que ela tenha um peso próximo ao dos Estados Unidos no resultado consolidado. Para isso, a Gerdau pretende aplicar no Brasil a mesma lógica de transformação que ajudou a tornar sua operação americana mais eficiente.

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Segundo Gustavo Werneck, o projeto ainda está em construção e deve ser apresentado nos próximos meses. O volume total dos investimentos ainda não foi definido, mas a empresa classifica o planejamento como transformacional. A ideia é reorganizar ativos, melhorar a produtividade das plantas e direcionar recursos para operações capazes de gerar maior retorno.

A Gerdau quer repetir no Brasil o processo realizado nos Estados Unidos

A mudança planejada pela companhia não surgiu do nada. Nos últimos anos, a Gerdau passou por um processo de reorganização de sua operação nos Estados Unidos, com foco na produtividade, no mix de produtos e na redução de custos.

Nos últimos cinco anos, a companhia investiu US$ 1,2 bilhão em usinas americanas como Midlothian, Jackson, Whitby, Cartersville e Petersburg. A estratégia incluiu a venda de ativos ligados à produção de vergalhões e a concentração de investimentos em operações consideradas mais competitivas.

O resultado dessa estratégia aparece no peso que os Estados Unidos passaram a ter nos resultados da companhia. No primeiro trimestre de 2026, por exemplo, a operação americana respondeu por cerca de 75% do Ebitda consolidado da Gerdau. A receita líquida nos Estados Unidos chegou a R$ 9,3 bilhões, com crescimento de 7,5%, enquanto o Ebitda da operação avançou 22,9%, para R$ 2,2 bilhões.

A empresa também conseguiu se posicionar em segmentos que podem ganhar importância com a expansão da indústria americana. De acordo com Werneck, a Gerdau já fornece aço para cerca de 40 fábricas de semicondutores nos Estados Unidos.

Esse movimento mostra uma das diferenças que a companhia pretende reproduzir no Brasil: não se trata apenas de produzir mais aço, mas de buscar mercados, produtos e estruturas produtivas capazes de gerar margens melhores.

Brasil perdeu espaço no resultado da companhia

O contraste entre as duas operações se tornou cada vez mais evidente nos últimos anos.

No primeiro trimestre de 2026, enquanto as vendas nos Estados Unidos cresceram 4,5% em relação ao trimestre anterior, as vendas no Brasil caíram 9,5%. A receita líquida da operação brasileira recuou 12,7%, para R$ 6,27 bilhões. Apesar disso, o Ebitda brasileiro aumentou 13,3%, chegando a R$ 578 milhões.

A diferença também aparece quando se observa o resultado consolidado. A Gerdau fechou o primeiro trimestre com lucro líquido ajustado de R$ 1 bilhão, crescimento de 51% na comparação indicada pela companhia, enquanto o Ebitda chegou a R$ 3 bilhões, alta de 23% sobre o primeiro trimestre de 2025.

Ao mesmo tempo, a receita líquida consolidada caiu 4%, para R$ 16,7 bilhões. O desempenho mostra que a companhia conseguiu melhorar suas margens mesmo diante de um cenário de pressão sobre as vendas, especialmente no mercado brasileiro.

Esse ambiente ajuda a explicar por que a direção da Gerdau entende que chegou o momento de uma revisão mais profunda da operação nacional.

Reorganização das usinas será uma das principais mudanças

A transformação brasileira deverá envolver uma análise individual das unidades industriais da companhia.

Atualmente, a Gerdau possui dez usinas em operação no Brasil. O plano prevê investir em ativos considerados mais produtivos e encerrar capacidades que, segundo a avaliação da companhia, não conseguem mais competir adequadamente em um mercado pressionado por custos elevados e pela entrada de aço importado.

A primeira demonstração concreta dessa estratégia ocorreu em Recife, onde a Gerdau decidiu encerrar a produção de aço na Açonorte, unidade que possui uma importância histórica para a companhia. A operação foi a primeira instalação industrial da Gerdau fora do Rio Grande do Sul, inaugurada em 1973.

A empresa decidiu manter no local as atividades de coleta e processamento de sucata, mas encerrou a aciaria e a laminação. Aproximadamente um terço dos funcionários foi desligado durante o processo.

A decisão mostra que o projeto não será baseado apenas na construção de novas estruturas. Parte importante da estratégia será justamente identificar quais operações ainda fazem sentido econômico e quais precisam ser substituídas ou encerradas.

A companhia pretende trocar pelo menos duas operações menos rentáveis por uma fábrica mais moderna e eficiente. Os locais dessas futuras operações ainda não foram definidos.

Mineração pode ser uma das principais apostas

Além da reorganização das siderúrgicas, a Gerdau pretende ampliar sua participação em atividades ligadas à mineração.

Um dos principais projetos está na mina de Miguel Burnier, em Ouro Preto, Minas Gerais. A expansão do empreendimento já recebeu bilhões de reais em investimentos e deve entrar em produção comercial no terceiro trimestre de 2026.

A expectativa é que a mina alcance uma produção de aproximadamente 5,5 milhões de toneladas de minério de ferro por ano durante cerca de quatro décadas. Esse volume seria suficiente para atender toda a necessidade anual da própria Gerdau, estimada em 3,5 milhões de toneladas, deixando aproximadamente 2 milhões de toneladas disponíveis para venda ao mercado.

O projeto pode mudar significativamente a estrutura de custos da companhia.

Segundo a Gerdau, as margens da mineração ficam entre 30% e 40%, enquanto o negócio principal de produção de aço trabalha com margens próximas de 10%. Isso significa que uma operação mineradora mais forte pode contribuir para aumentar a rentabilidade do grupo e reduzir a exposição aos preços de matérias-primas adquiridas de terceiros.

Além disso, ter maior controle sobre a própria matéria-prima pode oferecer à empresa uma vantagem competitiva em momentos de volatilidade dos preços internacionais do minério.

Sucata também entra na estratégia

A Gerdau pretende ampliar ainda a importância da sucata dentro de sua estratégia industrial.

A empresa já trabalha com reciclagem de aço e possui uma estrutura importante nesse segmento. Um novo centro de reciclagem de sucata ferrosa em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, recebeu investimentos de aproximadamente R$ 400 milhões.

A unidade deve contribuir para reduzir custos ao oferecer matéria-prima mais competitiva para a produção de aços especiais.

A estratégia faz parte de uma visão mais ampla de eficiência. Em vez de concentrar todos os esforços no aumento da produção, a Gerdau busca encontrar formas de produzir melhor, com menor custo e utilizando de maneira mais eficiente os recursos disponíveis.

Essa mudança de foco também ajuda a explicar por que a empresa fala em uma “nova Gerdau” no Brasil.

Empresa decidiu reduzir as exportações

Uma das decisões mais importantes do novo plano é a redução das exportações realizadas pela operação brasileira.

Historicamente, a Gerdau utilizava parte de sua capacidade produtiva para vender aço ao exterior quando a demanda interna não era suficiente para absorver toda a produção. Segundo a companhia, aproximadamente um terço da capacidade chegou a ser direcionado às exportações.

Agora, esse modelo está sendo abandonado.

As exportações brasileiras representam atualmente menos de 15% da operação, e a empresa decidiu deixar de utilizar esse canal como estratégia recorrente para compensar períodos de menor demanda doméstica.

A decisão está relacionada principalmente à combinação de juros elevados, câmbio, preços internacionais mais baixos e aumento da oferta de aço chinês no mercado global. Segundo o CFO Rafael Japur, nessas condições, exportar deixou de oferecer margem suficiente para justificar a operação.

Com isso, a prioridade da Gerdau passa a ser melhorar sua competitividade dentro do próprio mercado brasileiro.

Aço chinês é uma das principais preocupações

A decisão de reformular a operação brasileira ocorre em meio a uma forte pressão provocada pelo aumento das importações de aço.

A Gerdau vem criticando há anos o avanço do aço importado, principalmente de origem chinesa, no mercado brasileiro. No primeiro trimestre, a companhia apontava que o produto importado representava 22,7% do mercado nacional, enquanto nos aços planos o percentual chegava a 26,8%.

Para a empresa, a questão não é simplesmente competir com produtos estrangeiros. O argumento da companhia é que existe uma diferença nas condições de competição, especialmente em razão dos custos financeiros, tributários e de produção enfrentados pela indústria brasileira.

Gustavo Werneck também aponta o chamado Custo-Brasil como um dos obstáculos à competitividade. Na avaliação do executivo, custos de infraestrutura, tributação e energia colocam a indústria nacional em desvantagem em relação a concorrentes de outros países.

O preço do gás natural é citado como um exemplo. Segundo Werneck, a indústria brasileira paga valores significativamente superiores aos praticados nos Estados Unidos.

Para a Gerdau, uma política de defesa comercial mais eficiente seria importante para permitir que a indústria nacional invista em produtividade sem ser pressionada por uma concorrência que a companhia considera desigual.

A empresa não pretende abandonar o Brasil

Apesar das críticas ao ambiente de negócios brasileiro, a Gerdau afirma que não está considerando deixar o país.

A estratégia apresentada pela companhia é justamente o oposto: investir para recuperar competitividade e aumentar novamente a participação do Brasil no resultado global.

O CEO Gustavo Werneck afirma que o endereço da empresa continua sendo o Brasil e que a companhia pretende continuar investindo no país. A diferença é que os próximos investimentos deverão ser mais seletivos, concentrados em ativos capazes de gerar produtividade e retorno.

Nos últimos três anos, a Gerdau já realizou mais de R$ 15 bilhões em investimentos no Brasil, segundo Rafael Japur. Parte desses recursos foi destinada à redução de custos e outra parcela à produção de aço.

Agora, o objetivo é fazer com que esses investimentos resultem em uma mudança estrutural no perfil da operação brasileira.

Data centers e energia renovável entram no radar

O plano também considera oportunidades associadas a novos mercados.

A expansão dos data centers, impulsionada pelo crescimento da inteligência artificial e da infraestrutura digital, exige grandes quantidades de aço para construção e equipamentos. A transição energética e os investimentos em energia renovável também demandam aço para parques solares, estruturas, equipamentos e infraestrutura.

A Gerdau quer estar posicionada para capturar parte dessa demanda.

A experiência americana é considerada importante nesse sentido, já que a empresa conseguiu ampliar sua presença em segmentos industriais ligados à nova economia.

No Brasil, a companhia pretende adaptar sua estrutura produtiva para atender a mercados que possam oferecer melhores oportunidades de crescimento e rentabilidade.

Essa mudança representa uma evolução em relação ao modelo tradicional baseado apenas na produção de grandes volumes de aço para os mercados convencionais.

Energia renovável também faz parte da transformação

A estratégia de longo prazo da Gerdau inclui ainda investimentos em energia renovável.

A companhia já vem ampliando sua participação em projetos de geração de energia e investindo em fontes renováveis para reduzir custos e aumentar a previsibilidade de seu abastecimento.

Esse movimento é relevante porque a siderurgia é uma atividade que consome grande quantidade de energia. Portanto, ter acesso a fontes competitivas e de menor emissão de carbono pode contribuir simultaneamente para reduzir custos e melhorar os indicadores ambientais da empresa.

A aposta em energia também está relacionada à necessidade de tornar a operação brasileira mais competitiva no longo prazo.

Mercado financeiro acompanha a transformação

A mudança na estratégia brasileira também é observada pelos investidores.

As ações da Gerdau negociadas na B3 sob o código GGBR4 acumulavam alta de 17,8% em 2026 e de 47,7% em 12 meses até a publicação da reportagem do NeoFeed. A companhia tinha valor de mercado de aproximadamente R$ 45,6 bilhões.

Analistas, porém, continuam enxergando diferenças entre o desempenho das operações brasileiras e americanas.

Relatório do Itaú BBA divulgado em 11 de agosto avaliou que o Brasil está apresentando melhora marginal, mas ainda permanece como o elo mais fraco da companhia. O banco destacou a entrada gradual em operação de Miguel Burnier e os efeitos esperados de novas medidas sobre as importações de aço.

O Itaú BBA elevou o preço-alvo da Gerdau de R$ 25,23 para R$ 29 em 12 meses, mas reduziu a recomendação para neutra.

A avaliação mostra que o mercado reconhece o potencial dos projetos em andamento, mas ainda espera evidências concretas de que a transformação brasileira conseguirá produzir resultados consistentes.

Uma década para construir uma nova operação

O plano da Gerdau não deve produzir mudanças imediatas.

A própria empresa estima que a transformação brasileira levará aproximadamente dez anos. Isso significa que a companhia está olhando para uma mudança estrutural, e não para uma simples reorganização de curto prazo.

Nesse período, a Gerdau deverá decidir quais ativos serão ampliados, quais serão encerrados, onde serão construídas novas estruturas e quais mercados deverão receber maior atenção.

A mineração, a reciclagem, a produção de aços especiais, a energia renovável, os data centers e outros segmentos industriais podem fazer parte dessa nova fase.

O objetivo final é recuperar a relevância do Brasil dentro do resultado global da companhia sem reduzir a importância dos Estados Unidos.

A Gerdau não pretende escolher entre os dois mercados. A estratégia é construir duas operações fortes, capazes de contribuir de maneira equilibrada para o resultado consolidado.

A transformação anunciada representa, portanto, uma mudança importante na estratégia da siderúrgica. Depois de anos em que a operação americana ganhou espaço e passou a responder pela maior parte dos resultados, a empresa agora quer aplicar no Brasil a mesma disciplina de investimentos, produtividade e reorganização de ativos que ajudou a construir sua posição nos Estados Unidos.

O projeto ainda está em construção, mas algumas decisões já começaram a aparecer. O fechamento parcial da operação de Recife, a expansão de Miguel Burnier, os investimentos em reciclagem e a redução das exportações indicam que a companhia está disposta a modificar estruturas que durante décadas fizeram parte de sua operação.

A grande questão será transformar esses movimentos em crescimento sustentável.

Para isso, a Gerdau terá de enfrentar desafios que vão além de sua própria gestão, como a demanda interna, os juros, o custo da energia, a concorrência internacional e as políticas de defesa comercial.

Ao mesmo tempo, a companhia poderá se beneficiar de novos ciclos de demanda ligados à infraestrutura, energia, industrialização, data centers e transição energética.

Se o plano funcionar, a “nova Gerdau” poderá representar uma empresa brasileira diferente daquela que chegou a depender cada vez mais dos resultados obtidos no exterior. A intenção é criar uma operação nacional mais eficiente, mais competitiva e capaz de disputar novos mercados.

A transformação será longa e exigirá bilhões de reais em investimentos, decisões difíceis e uma combinação de eficiência operacional com visão de longo prazo. Mas a estratégia deixa claro que a Gerdau pretende continuar tendo o Brasil como uma de suas principais bases de crescimento.

A companhia ainda não divulgou o valor total do investimento previsto para essa transformação. O plano deverá ser apresentado nos próximos meses, e sua execução deverá se estender por cerca de uma década.

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