Pouco mais de um mês após a entrada em vigor das novas tarifas de importação determinadas por Donald Trump, empresários brasileiros e comerciantes nos Estados Unidos já enfrentam os reflexos da medida. O aumento de 50% nos tributos está mexendo com estoques, contratos e estratégias de mercado.
Em Washington, a loja By Brazil, especializada em produtos do país, antecipou as compras e conseguiu estocar mercadorias suficientes para manter os preços por até três meses. “Nos preparamos para não repassar imediatamente esse aumento ao consumidor. Fizemos estoque e vamos segurar o quanto pudermos”, afirma Roberta Rocha, sócia-proprietária. Entre os produtos mais procurados estão arroz, feijão, café, farinha, cosméticos e utensílios domésticos, ainda sem reajuste nas prateleiras.
Já as tradings, que dependem fortemente das exportações, sentiram o impacto de imediato. A Paraná Trading, que atende mais de 400 pontos de venda nos EUA, viu a queda nos pedidos chegar a 80%. “Nosso negócio era quase metade voltado para os Estados Unidos. Agora estamos retomando contatos na América do Sul e intensificando negociações com a Europa”, explica João Fernando Zogheib de Souza, sócio-fundador da empresa. Segundo ele, parte da equipe já tem visitas agendadas no Paraguai, Argentina e União Europeia.
O cenário preocupa importadores tradicionais. A Seabra Foods, uma das maiores redes de supermercados de produtos brasileiros nos EUA, tem buscado alternativas no México, Portugal e Caribe para manter as gôndolas cheias. “Alguns produtos até podem ser substituídos, mas outros, como o pão de queijo, são insubstituíveis. O consumidor brasileiro vai sentir o preço pesar”, alerta Júlio Cezar Dutra Ribeiro, da Adoro Consultoria Internacional.
No caso do pão de queijo, os valores podem subir dos atuais US$ 10 o quilo para até US$ 15. A mineira Maricota, uma das maiores exportadoras do produto, já registrou cancelamentos de pedidos. “Negociamos descontos, reduzimos margens, mas o mercado deve encolher em torno de 70%”, afirma o sócio Ronaldo Evelande de Oliveira. Para contornar a crise, a empresa aposta em feiras internacionais e na expansão para mercados como Argentina, República Dominicana e Oriente Médio.
Para os empresários, a decisão de Trump coloca em risco anos de esforço para adaptar produtos às exigências de órgãos como o FDA, responsável por regular alimentos nos EUA. “É um baque enorme. Investimos em rotulagem, embalagens e fórmulas específicas. Agora teremos de redirecionar tudo isso a outros mercados”, diz Oliveira.
Enquanto aguardam um eventual recuo da medida, exportadores brasileiros reforçam a estratégia de diversificação. A avaliação é que depender exclusivamente dos Estados Unidos se tornou arriscado em um cenário de tarifas imprevisíveis. “O problema maior é a falta de segurança para planejar negócios de longo prazo. Vivemos agora uma economia tempestiva”, conclui Zogheib de Souza.
Portal Feras