Não é preciso ir muito longe na Rua Uruguaiana, uma das principais vias do Centro do Rio, onde há grande concentração de pedestres e de comércio informal, para ser abordado com uma oferta para lá de suspeita. Quase sempre em pé, e portando um celular nas mãos, homens, e em alguns casos mulheres, escolhem seus potenciais clientes. Ao avistar alguém se aproximando, eles anunciam em voz moderada o negócio clandestino: a venda de celulares por preços muito abaixo dos valores de mercado. Nesta terça-feira, por exemplo, um aparelho Samsung S-23, era oferecido a R$ 2,4 mil, podendo sair até R$ 2,3 mil dependendo dos argumentos de quem está interessado na compra.
Em sites de lojas oficiais, o mesmo aparelho, dependendo da memória e da variação de modelo, é vendido por preços entre R$ 2,6 mil e R$ 3,1 mil. Há alguns anos, na Uruguaiana, havia em alguns boxes, a exposição de telefones de origem duvidosa que eram colocados à venda. Atualmente, a comercialização ainda existe, mas de maneira mais discreta. No Rio, os roubos de celulares dispararam nos últimos anos. Apenas dez dos 147 bairros da cidade concentram um terço (5.067) de todos os 14.196 casos registrados em 2024. Os dados fazem parte do Mapa do Crime, ferramenta criada e publicada pelo jornal O Globo a partir de informações inéditas do Instituto de Segurança Pública (ISP) que mostra onde mais se rouba celular na capital fluminense.
Nesta terça-feira, dia em que a Polícia Civil anunciou a entrega para seus legítimos proprietários de 1,4 mil telefones celulares roubados, a reportagem do Extra esteve na Rua Uruguaiana, apontada em investigações como um dos maiores pontos de comercialização dos aparelhos roubados e furtados no Rio. Pouco antes do meio-dia, ao sair da Presidente Vargas e caminhar pela Uruguaiana, já era possível ouvir dois homens conversando. Um deles faz o anúncio ao notar nossa aproximação: celular, celular. Ignoramos a oferta e resolvemos dar uma volta na parte interna do camelódromo. Nos boxes não havia celulares para venda, apenas o anúncio de conserto de aparelhos.
Então, resolvemos dar mais uma volta e retornarmos ao mesmo ponto da esquina da Avenida Presidente Vargas com a Rua Uruguaiana. A poucos passos de uma das entradas do camelódromo, ainda na parte externa, ouvimos novamente o anúncio, desta vez acompanhado da oferta de medicamentos para úlcera utilizados como abortivos e remédios para disfunção erétil: "celular", "Cytotec", "Pramil". Um homem se aproxima sem saber que se tratava de um repórter. Fingindo interesse, pergunto quanto custa um telefone celular modelo S-20. O preço é de R$ 1,2 mil.
Nos sites de rede de lojas, dependendo da memória, o aparelho tem custo entre R$ 1,7 mil e R$ 2, 5 mil. O mesmo vendedor oferece ainda um modelo mais novo, um S-23, por R$ 2,4 mil. Recusamos a oferta. Outro homem, parceiro do primeiro, se aproximada e diz que a venda pode ser feita por R$ 2,3 mil.
Portal Feras